A saga da volta pra casa

Terminadas as aulas, comecei a maratona de viagens tão esperada. Passei por Barcelona, Bruxelas, Berlim, Amsterdã, Praga, Viena e Budapeste. Depois, ainda viajei com meus pais para a Grécia. Muitas histórias pra contar, mas todas se tornaram secundárias diante do périplo que seria a minha volta pro Brasil.

No dia 18 de julho saí de casa às 8h50 da manhã para embarcar no voo de retorno ao Brasil, que sairia às 12h15. Mal sabia eu que eu só chegaria em casa dois dias depois e ainda passaria pela República Dominicana e Panamá.

Depois de quarenta minutos de trem, heguei ao Terminal 4 do aeroporto de Barajas. Vi a enorme fila para check in e despacho de bagagens e resolvi arriscar o auto check in pelas máquinas disponíveis em frente ao balcão da Iberia, companhia pela qual viajaria.

Não consegui finalizar o check in e imprimir meu cartão de embarque. Ao tentar selecionar o assento, só via cadeirinhas vermelhas. Nada disponível. Fui para a fila do check in rezando para que não acontecesse o pior: deixar de embarcar por causa de um overbooking.

Para quem não sabe (e eu não sabia), comprar a passagem não significa necessariamente que você tem o seu assento garantido. Se houver um número maior de reservas do que de assentos, algumas pessoas podem simplesmente não viajar. A companhia deve encontrar vaga no próximo voo disponível, oferecer estadia em hotel e uma indenização pelos transtornos causados. Tudo bem simples. Ou não.

Fiquei na fila do check in e despachei minha bagagem. Ao receber o cartão de embarque, a funcionária explicou: “Você está na fila de espera desse voo. Dirija-se ao portão de embarque, porque vamos fazer de tudo para você voar”. Depois das viagens pela Europa, posso dizer que maior do que o medo de que a bagagem de mão não caiba na gaiolinha da Ryanair ou exceda o peso permitido é a tensão de ter um “SBY” (Stand by) marcado no lugar do seu assento.

Passei pela imigração (o que significa que eu já tinha saído da Espanha) e fui ao portão de embarque. Ali encontrei mais pessoas na mesma situação: uma mineira menor de idade cuja mãe iria de Uberaba para buscá-la em Guarulhos, um intercâmbista que fez o check in às 9h20 da manhã e já ficou na lista de espera, uma espanhola que repetia ser a primeira da lista por que tinha mais milhagens pela Iberia. Havia também uma família: dois conseguiram fazer o check in e um ficou na espera. O mesmo com outro casal: um tinha assento, o outro, lista de espera. O casal cedeu o lugar para a família e todos os outros conseguiram embarcar. Menos eu e outras oito (!) pessoas.

Balcão de atendimento ao cliente, as funcionárias buscavam outros voos a Guarulhos para nos encaixar. Não havia vaga no voo das 18h, nem no das 0h40, nem do das 12h15 do dia seguinte. Solução: voar com uma companhia chinesa, no dia 19, às 8h45. Enquanto isso, hotel e indenização de 600 euros.

Problema: meu visto de permanência na Espanha por seis meses vencia justamente no dia 18 de julho. Ou seja, a imigração poderia barrar a minha entrada no país, já que eu só poderia ficar na Espanha algumas horas. A alternativa da Iberia foi me colocar num voo Madri – Punta Cana – Guarulhos, que sairia às 16h55. O primeiro trecho seria feito pela AirEuropa e o segundo, pela Varig. Para isso, teria que passar pela imigração, retirar minha bagagem e fazer o check in pela outra companhia. A funcionária da Iberia fez um pequeno relato de porque eu estava passando pela imigração novamente, para que não me barrassem, o que foi completamente desnecessário. O policial nem olhou pro meu passaporte direito e me deixou passar, vai entender…

Retirei minha bagagem e fui fazer o check in. Não antes de retirar a indenização de 600 euros, obviamente! Malas despachadas, passo mais uma vez pela imigração e embarco no voo com duração de 7h50 para a República Dominicana.

Aeroporto de Punta Cana

Uma noite em Punta Cana

Até aí, a minha única preocupação era que o voo não atrasasse, já que eu deveria chegar em Punta Cana às 19h20 e tomar o voo das 21h para o Brasil. Cheguei no horário e não havia fila no check in da Varig, ufa. Expliquei o ocorrido e mostrei o voucher que a Iberia havia me dado para retirar o cartão de embarque. Resposta do funcionário da Varig: “Vamos ter que ver isso com a supervisora”.

Chega a supervisora e me diz: “Senhora, para embarcar você tem que pagar a taxa de 85294,95 pesos dominicanos ou 2187,00 dólares”.

O quê? Como assim? Eu não tenho que pagar nada, já paguei minha passagem. Nem tenho esse dinheiro!

A funcionária não soube me explicar porque teria que pagar esse valor. Pedi que contatassem a Iberia, disseram que eu teria que fazer por minha conta. Pedi que pelo menos me deixassem ver o telefone de contato da Iberia na internet, também não permitiram.

Desesperada e com medo de perder o voo, disse que pagaria a taxa para embarcar. Mas eles não aceitavam pagamento com cartão de crédito!!! Só em dinheiro, em dólares ou em pesos dominicanos.

Pensei que talvez o dinheiro que eu tinha na carteira (pouco mais de 700 euros, por conta da indenização) desse para pagar o voo. Acompanhada por um policial, fui à casa de cambio trocar o dinheiro. Em euros, o valor da taxa passava de mil. Não sabia o que fazer. Pensei em trocar uma parte e sacar o restante do cartão de crédito. Mas por conta do tempo, disseram que seria mais fácil sacar tudo de uma vez. Tudo bem, mas que seja rápido! Transação negada. Só depois fui saber que o máximo permitido de saque no cartão é de 20 mil pesos dominicanos e eu precisava de quatro vezes mais!

De volta ao balcão de check in, tentei falar com os funcionários da Iberia que haviam acabado de finalizar um embarque pra Madri. Ele conversou com a supervisora da Varig – que encontrou a minha reserva! – mas que por conta dessa taxa não podia me deixar embarcar. Funcionário da Iberia me diz: “Não posso fazer mais nada, agora você tem que resolver com eles”. WTF?!!!!

Segunda tentativa de pagar o voo: iria sacar máximo permitido e trocar os euros que tinha. Pensei que assim chegaria ao valor necessário. Mas já eram 20h40 e a supervisora da Varig disse que eu não tinha mais tempo para pagar o voo, já havia perdido.

Sem poder embarcar, perguntei pelo próximo voo para o Brasil. “Sexta-feira, dia 20”. Quê?! E eu posso comprar com cartão de crédito? “Não, você tem que chegar aqui na sexta feira e conversar com…” Indignada, nem esperei a moça terminar de falar…

Saí em busca de outra companhia que voasse para o Brasil. A Copa Airlines fazia o trecho com conexões. Subi ao escritório deles para buscar passagens. Finalmente encontrei alguém que me ajudasse! Deuris, o funcionário, foi super solícito. Disse que havia vários voos para o Brasil, o primeiro deles às 6h, com conexão no Panamá. Poderia comprar a passagem com cartão de crédito pela internet ou por telefone. Como o sinal de internet estava muito ruim, me emprestou o telefone para fazer a compra. O único voo disponível era às 12h59, classe executiva, 1500 dólares (!).

Depois, o Deuris ainda me indicou um hotel para passar a noite e contatou o responsável pelos transportes da Copa Airlines para me levar até o local. Sem conhecer nada na cidade, pensei em passar a noite no aeroporto, mas essa opção estava fora de cogitação. O aeroporto de Punta Cana é super pequeno, especialmente antes de se dirigir ao portão de embarque, e o pior, totalmente aberto.

Estava extremamente quente e úmido e eu fui devorada pelos pernilongos durante os quinze minutos que fiquei conversando com meus pais pela internet para contar sobre o ocorrido. Não preciso dizer que eles ficaram super preocupados e sem ter o que fazer a respeito…

Deuris recuperou a minha mala, que chegou em Punta Cana (e não em Guarulhos, como me informaram em Madri) e eu fui pro hotel. Vinte minutos de carro. Passei por ruas de terra, super escuras, vi alguns detidos no carro da polícia e gente pedindo carona. No Aparta Hotel Veron, que mais era um apartamentinho de praia, comi um misto quente triplo (três fatias de pão, três de queijo, três de presunto) e água. Não tinha internet, mas consegui um cartão telefônico pra avisar aos meus pais que eu ainda estava sã e salva.

Que bom que havia ar condicionado no quarto! Tomei um banho (frio, porque não havia água quente…) e fui dormir. Quer dizer, tentar dormir. Deveria acordar no dia seguinte às 8h para me arrumar e ir ao aeroporto. Ramón, funcionário do hotel, iria me levar de volta. Fiquei com medo de não conseguir acordar de tão cansada. Afinal, no meu horário da Espanha já eram 6h da manhã e eu havia dormido no máximo duas horas no avião.

De tão ansiosa, acordei às 3h30. Voltei a dormir. Acordei às 4h30. Voltei a dormir. Depois às 5h30. Aí não consegui dormir mais. Fiquei enrolando na cama até às 6h15 e levantei, fui tocar violão. Nesse percurso todo levava, além de uma mochila super pesada com notebook, casaco, livro, etc., o violão que tinha ganhado de uma austríaca que morava em casa. Foi ótimo pra dar uma relaxada e espantar essa zica!

Depois tomei um banho – frio -, lavei a cabeça, me arrumei e comi outro misto quente triplo de café da manhã. De volta ao aeroporto, quis usar a internet para avisar meus pais que eu continuava sã e salva, mas meu computador estava sem bateria e todas as tomadas eram incompatíveis com o cabo da fonte. Vários funcionários do aeroporto vieram falar comigo, pois tinham visto o meu desespero no dia anterior. Dessa vez ocorreu tudo bem. Peguei o voo de três horas em direção ao Panamá.

Vista do Aparta Hotel Veron pela manhã

Enfim, boas notícias

Aí estava eu, like a boss, na classe executiva num voo para o Panamá. Fiquei emocionada com a poltrona espaçosa que tinha só pra mim, uma coberta grande e quentinha. E o almoço! De entrada, castanhas. Depois, arroz com filé de corvina, salada e brownie de sobremesa. Nunca fiquei tão feliz de comer uma comida boa!

Desci no Panamá e fui direto ao portão do voo para São Paulo. Já tinha o cartão de embarque em mãos, ou seja, não poderiam barrar a minha entrada no voo – assim esperava. Aproveitei os minutos antes do embarque para comprar um cartão telefônico e avisar meus pais de que eu estava prestes a voltar pro Brasil, finalmente! Em seguida agradeci várias vezes por estar embarcando num voo de volta pra casa!

Tinha acabado de almoçar, mas não dispensei o serviço de bordo, que dessa vez me serviu penne, creme de milho, etc… consegui enfim relaxar. E estava tão cansada que peguei no sono antes de a aeromoça servir o sorvete de sobremesa  (e eu queria muito um sorvete!). Dormi quase a viagem inteira na minha poltrona gigantesca e reclinável.

Em casa? Não tão rápido…

Desembarquei em Guarulhos à 0h30, mais ou menos. Faminta, procurei a comida que eu mais senti falta esses seis meses: pão de queijo!!! Comprei logo dois. Depois busquei o bom e velho ônibus da Caprioli que vai direto do aeroporto pra Campinas. O próximo ônibus era só às 5h30. Resolvi ir até o terminal Tietê e dali comprar a passagem pra Campinas.

O ônibus saiu à 1h30, às duas estava na rodoviária. Ali conheci uma menina de Cabo Verde que veio pro Brasil para morar com a mãe em Santa Rita do Passa Quatro. Ela, como eu, esperava que ao chegar na rodoviária houvesse um ônibus pelo menos dali a meia hora para nossos destinos… O primeiro ônibus pra Campinas era às 4h30 e para Passa Quatro, só consultando a companhia que fazia o trecho, a partir das 5h30.

Ela quis procurar um lugar pra ficar até às 5h. Eu preferi esperar as duas horas sentada na rodoviária, cochilando com a cabeça apoiada sobre as malas e acompanhada de um monte de gente que também tentava dormir algumas horas antes da abertura dos guichês. Pouco antes das 4h, acordei, comprei a passagem e, antes de embarcar, comprei mais um saquinho com mini pães de queijo.

Coxinha e pão de queijo no aeroporto de Guarulhos

Deveria ter chegado em casa dia 18, umas 22h. Cheguei no dia 20, às 6h, cansadérrima, com mais dois países no currículo e surpreendentemente feliz de estar em casa.

Já comi arroz, feijão e bife, acarajé, tapioca e pastel. Agradeci por ser normal que aqui faça 29ºC no inverno. Mas ainda estou achando esquisito não ouvir no mínimo três línguas diferentes ao meu redor toda vez que saio na rua.

Agora, as lições que aprendi com essa viagem e que servem de dicas para quem for pegar um voo internacional.

1 – Faça o check in online. Pelo que eu pude entender, se eu tivesse feito o check in online o quanto antes, teria reservado meu assento e evitado ficar na lista de espera. Se isso não der certo, …

2- Chegue cedo ao aeroporto. Quem faz o check in ante, tem prioridade na lista de espera. Como relatei acima, um passageiro fez o check in às 9h20 para um voo das 12h15 e ficou na lista, mas conseguiu entrar. Torça para que ninguém com muitas milhagens passe na sua frente, porque isso também acontece.

3- Implore por voos diretos e operados pela própria companhia. O maior erro nesse percurso todo foi eu ter aceitado, por falta de conhecimento, fazer um voo com conexão operado por duas companhias diferentes. Tratando diretamente com a companhia, não tem como eles não resolverem o seu caso. Da mesma forma, se ocorrer tudo bem no embarque de um voo direto com uma outra companhia, você vai descer no seu destino final. Se não, ainda está no aeroporto e pode reclamar diretamente com a companhia!

Boa viagem a todos!

Saludos de Brasil!

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , | 12 Comentários

Navegação de Posts

12 opiniões sobre “A saga da volta pra casa

  1. CARALHO! E eu que achei que meu perrengue de vôo cancelado na Holanda tinha sido ruim…
    Que bom que no fim deu tudo certo 🙂

  2. Luisa Pinheiro

    Meudeus, Mi!!! Sei que a culpa não foi tua, mas dessa vez tu conseguiu me superar hein! Nunca mais vai poder falar de mim e reclamar dos meus voos perdidos hahahaha.
    Que bom que no fim deu tudo certo mesmo 🙂

  3. daninakamuraa Nakamura

    Quando dissemos no blog que iríamos relatar nossos perrengues, a intenção não era ter um puta de um perrengue assim pra escrever! Imagina o teu desesperooooo!

  4. jessicabutzge

    Miiiiiiii!! Eu não deveria ter lido isso antes de embarcar!! Se tu sobreviveu a tudo isso, acho que no fim a frase é “don’t worry about a thing, ‘cause every little thing gonna be all right”. Mas que bom que a senhorita está de volta! Espero ouvir outras histórias também. Essas com início, meio e final feliz. hahahaha Se cuida! ;**

    • milenalumini

      Hahaha! O que eu aprendi é exatamente isso… no final, tudo dá certo!
      Vamos ter tempo de atualizar as histórias 😉
      Beijos!

  5. Luiz

    Meu Deus, mas você teve de arcar com isso tudo mesmo??? Já pode entrar em desespero? ahahaha Eu não quero passar por isso não 😦 nem vo ter dinheiro pra pagar ahahahhaa

  6. Luiz

    E Milena, faz um post por favor sobre os lugares que são bons pra se morar que são de fácil acessoa a UAM por favor ahahaha.. os que acho mais acessíveis (300 euros) são longe demais (tipo, quase outra cidade ahaha) :((((((

  7. Mell delllss… Fiquei tenso aqui lendo o seu relato! Eu teria ficado puto… Será que você não consegue uma indenização com a Iberia? E nem deu pra curtir Punta Cana… =(

    • milenalumini

      Estou tentando a indenização com a Iberia, vamos ver…
      E não deu pra curtir Punta Cana, mesmo. Primeiro porque eu estava preocupada em voltar pra casa. Depois, fiquei hospedada na parte pobre da cidade, não na rica, bela e cheia de gringos 😉

  8. Reblogged this on Poltrona Livree comentado:
    Vale a pena a leitura deste relato de viagem…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: