Fallas de Valencia: carnaval + Oktoberfest + festa junina

Os preparatórios para ir a Valencia durante a festa mais famosa, as Fallas, começou quase um mês antes do fim de semana do dia 17 de março. Buscamos hostels, hoteis, abrigo na casa de conhecidos. A cidade já estava lotada, os preços lá em cima e os hostels estavam exigindo um mínimo de 5 dias de pernoite para fazer a reserva.
Também tínhamos a opção de ir de excursão com outros intercambistas de Madrid por 25 euros: sairíamos pela manhã para voltar chegar aqui no dia seguinte. Descartamos. Queríamos conhecer a festa, sim, mas principalmente a cidade, o que nos tomaria um pouco mais de tempo (e eu, Dani, queria comemorar meu aniversário decente e dignamente!). Acabamos encontrando um quarto aconchegante na região de Calicanto, próximo a Valencia.

Comecei a viagem nervosa enquanto esperava a Dani descer da estação de trem  e chegar à rodoviária de onde saía nosso ônibus antes das 9h. Ela chegaria de Pontevedra às 8h, mas teria que estar na estação de ônibus umas 8h50 para não perdermos a viagem.(Eu também tava super nervosa, apesar do sono!) De Chamartín a Mendez Álvaro são quatro paradas e quinze minutos de viagem caso você não pegue o trem errado entre os que saem das onze plataformas da estação (sim, eu quase peguei o trem errado, mas pedi ajuda pros seguranças que me disseram: “cooorre pra outra plataforma!!!!!”).
Deu tudo certo e às 8h40 já estávamos em frente ao ônibus, guardando nossas mochilas. Passamos as quatro horas de viagem falando sem parar, contando as novidades irritando os demais viajeiros que tentavam dormir.(também, pudera, pela internet só conversamos coisas de viagem, hostel, cidades..!)

Já em Valencia, pegamos outro ônibus para Calicanto. Qual foi a nossa surpresa quando o ônibus que levava ao povoado demorou cerca de meia hora para chegar à parada mais próxima da nossa estadia. Sabíamos que estávamos longe da cidade, mas não tanto! Passamos por plantações de uva, campos verdes, casas que nos lembraram o interior de São Paulo.

Dali, a Paqui, nossa anfitriã, nos buscou de carro para levar à sua casa, que ficava em um morro, a uns 5km da parada de ônibus. Só então nos demos conta de que havíamos reservado um Bed and Breakfast: estadia na casa de um morador local, com café da manhã incluído. No nosso caso, com janta incluída, também. Ficamos impressionada com a paisagem e a tranquilidade da casa em Calicanto. Nada do que a gente esperava, mas um pouco do que estávamos precisando.

Nosso quarto na casa da Paqui, nossa anfitriã de Bed and Breakfast

A Paqui aceitou trocar nossa janta por um almoço, já que tínhamos muita fome e o próximo ônibus a Valencia só passaria dali a duas horas (!). Foi nosso primeiro almoço caseiro não preparado por nós mesmas.(pasmem, até bacon eu comi,tamanha a fome!)Paqui foi super atenciosa e nos passou toda programação das Fallas. Contou um pouco da história da festa, de como já estava cansada de participar das Fallas durante anos, coisa que suas filhas e marido ainda fazem todos os anos.

Depois pegamos o ônibus de volta a Valencia para conhecer a cidade e a festa! Primeira impressão: uma grande festa junina. À noite havia feiras com barracas de souvenires,  bolsas, calças, brincos colares pulseiras, doces abundantes e de todos os tipos, churros e porras (tivemos que experimentar as porras…são churros mais gordinhos recheados de creme, nada mais!) Aproveitamos para nos situar pela cidade, ver alguns bonecos (as Fallas, que no dia de São José, 19 de março, são queimadas), comer um bocadillo (A mi tinha uma impressão ruim de bocadillo de tortilla, mas esse ela curtiu, e agora garanto que vai provar todos!) e pegar o último trem de volta a Calicanto.

A primeira falla que vimos. Nos lembramos dos bonecos de Olinda. Mas as fallas são muito mais elaboradas e maiores!

As ruas estavam cheias de gente, mas nada comparado ao que veríamos no dia seguinte, quando saímos às 9h30 de Calicanto com planos de voltar só no dia seguinte. Ao chegar na cidade, no outro dia, mais uma impressão sobre a festa: uma mistura de Oktoberfest com desfile de 7 de setembro. Havia grupos de falleros vestidos a caráter, caminhando e fazendo música pelas ruas. O repertório variava  das canções mais tradicionais até a melhor versão de “Ai se eu te pego” que ouvi até agora. (O meu repertório é maior, já até estou com uma pasta no computador com todos os vídeos de Ai se eu te pego aqui na Espanha, o melhor que eu ouvi foi em Xinzo de Limia, na Galícia).

A falla mais bonita! Reparem nos detalhes!

A primeira programação das Fallas daquele dia era a Mascletá: cinco minutos de fogos de artifício que acontece na Plaza del Ayuntamiento, todos os dias, às 14h. Às 13h15 tentamos chegar à praça, mas ficamos parados em meio à multidão que também tentava alcançá-la. Uma valenciana nos disse que já havia gente esperando desde as 12h. Alguns apartamentos próximos à praça alugavam suas sacadas para quem quisesse assistir à queima de camarote.  A princípio, a Mascletá é só uma queima de fogos de artifício durante o dia. Mas são tantos e de tão grande intensidade que o chão chega a tremer. Fiquei arrepiada.

A próxima atração da festa era a oferenda à estátua de madeira da virgem dos desamparados, na Plaza de la Virgem.
Chegamos cedo e a rua que levava à praça também estava sendo bloqueada pelos policiais para que os falleros pudessem passar levando sua oferenda. Passamos por aquela velha situação vergonha-alheia: uma senhora (barraqueira!)começou a reclamar com algumas pessoas que estavam em frente à grade de proteção. Dizia que estava há muito tempo esperando a oferenda começar e que quem chegou depois não poderia ficar na sua frente. Sua filha era a fallera mayor (a “Rainha das Fallas”) e ela queria vê-la levando a oferenda – ela gritava, para que todos compreendessem a injustiça! E não só isso, também exigia que a grade de proteção fosse afastada um pouco mais para que houvesse mais espaço para os falleros passarem e, é claro, para que menos gente ficasse entre ela e sua filha – a fallera mayor. Passaram moças, crianças, rapazes, senhores, e até o neto de quinze dias da colega da mãe da fallera mayor! (muitas mulheres passavam super emocionadas, choraaando horrores!)

Desfile do pessoal indo oferecer as flores à Virgem dos Desamparados. Reparem nos bebês à caráter!

Tentamos chegar à praça por outra rua, e vimos que a oferenda não era simplesmente deixar as flores ao pé da estátua. Os falleros sobem na estrutura de madeira e com as flores vão formando o manto da virgem.

As flores carregadas pelos fieis são colocadas na Virgem em madeira, que no fim das Fallas fica toda preenchida com flores de diversas cores.

Não chegamos a ver o manto pronto. Ainda tínhamos uma cidade inteira pra conhecer, a Cidade das Ciências. O plano era alugar uma bicicleta para ir do centro histórico a essa “cidade” onde estão os Museu das Artes, Museu da Ciência e Oceanógrafo, todos incrivelmente arquitetados! Não encontramos bicicletas no caminho, então seguimos a pé, mesmo, aproveitando os bons ares do Jardín de Turia – um parque que um dia já foi um rio.

Museu de artes na Cidade das Artes e Ciências. Incrivelmente bonita, clara e moderna.

Queríamos conhecer o Oceanógrafo, mas já não havia mais tempo: o tour completo leva 3 horas e chegamos a uma hora de fechar o museu. Além disso, as entradas são bem salgadas: 21,5 euros. Aproveitamos para descansar e tomar uma Orxata, bebida típica de Valencia feita com sementes. Uma mistura de amendoim com leite com guaraná que é incrivelmente deliciosa! Pena não poder trazer mais pra casa.

Ô bebida boa! Feita de chufa, uma "semente raiz" parecida com avelã.

Próxima parada: praia! Pegamos um ônibus até a praia Malvarrosa. Maravilhosa e aconchegante, com sua areia fina que escapa entre os dedos. Estava cheia de jovens. Uns jogavam futebol, outros corriam e gritavam. Alguns corajosos ainda nadavam no Mediterrâneo gelado, mas a maioria estava sentada em rodinhas, conversando, bebendo ou desacordado, curtindo um porre. Eram sete da noite e o pessoal já tinha passado da conta.

Praia Malvarrosa (Mar Mediterrâneo), no fim de tarde. Linda! Areia mais fina, impossível.

No banheiro da lanchonete mais próxima, uma fila de meninas descabeladas e com a maquiagem borrada se segurando pra não fazer xixi nas calças. Depois de um quinze minutos, saiam da lanchonete penteadas, visual impecável, pronta pra próxima festa.

De volta ao centro da cidade, e depois de comer e descansar um pouco nos bancos da estação de trem, estávamos prontas para começar a noite. Encontramos duas amigas brasileiras, que estão aqui em Madrid, e seus dois colegas valencianos que fizeram intercâmbio no Brasil! (um deles falava português muito bem!)
Com eles fomos assistir à queima de fogos (tipo reveillon mesmo)– outro dos itens da programação das Fallas -, e em seguida paramos em um bar. Ouvimos histórias da “assistidora de novelas profissional” que fazia maconha negra, digo, magia negra e aprendemos o equivalente em espanhol a “caguei, caguei montão” (“me suda la polla”). Rimos um monte, mas ainda queríamos ir numa balada, pra aproveitar as cinco horas que ainda teríamos ali e para comemorar o aniversário da Dani!!(e eu curtindo pela primeira vez o fato de fazer aniversário em terras estrangeiras!)

Brasileiras e dois espanhois que fizeram intercâmbio no Brasil.

Depois de caminhar muito e encontrar alguns lugares fechados, acabamos numa festa de rua, com banda, também comum durante as Fallas. Impressão sobre as Fallas número 3: um carnaval, com figuras alegóricas e festas de rua. Quando finalmente encontramos uma festa, já era 5h. Teríamos que pagar 10 euros (leia-se 25 reais) pra ficar só mais duas horas. Cansados, paramos no Starbucks, comemos e corremos para pegar o trem de volta para Calicanto. Ufa.

Horas mais tarde, acordamos (na verdade eu nem dormi direito, sabe quando você tá tão cansado fisicamente que não consegue dormir? então…) e tomamos um café da manhã delicioso. Nos despedimos da Paqui, do nosso quarto e de Valência, com vontade de ficar mais.

A história triste e inacreditável: a Paqui nos contou que um casal de hóspedes, que havia chegado na noite anterior, havia fugido, ou seja, ficaram por dia, tomaram banho e saíram sem pagá-la! Eu e a Mi não ficamos de cara! Ainda mais com uma anfitriã tão gente boa!

A Mi ficou em Madrid – me apresentou a estação de Atocha, hehe- eu ainda peguei um trem de 9 horas de viagem até Pontevedra. Mas passei por um “momento turista-perdida”: entrei no vagão errado, o moço que confere as passagens me avisou. Imagine, andei do vagão 4 até o vagão 114, que era o correto, com o trem em movimento. Conheci os rincões do trem, me senti num “titanic”, passando pela classe turística comum, pelo depósito do trem e pelas classes de luxo até chegar no meu lugar.

Café da manhã preparado pela Paqui, nossa "mãe-guia-taxista" em Valencia

Agora restam os preparativos pra Semana Santa. Nesta quarta, dia 28, iremos a Londres! Até o dia 8 de abril, nossa meta é visitar Veneza, Verona e Milão. Contaremos tudo pra vocês quando voltarmos!

Saludos! Já menos frios e com toques de primavera:)

Apesar de nos ter saído um pouco cara, a viagem a Valencia valeu cada centavo pago! E conhecemos mais uma festa típica da Espanha:)

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Tags: , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: